Eles conspiram contra nós?
- CUIDADO crianças

- 10 de fev. de 2020
- 3 min de leitura

Parece haver alguma má-intenção naquele moleque que derrama o suco de frutas vermelhas na roupa de festa quando a família está pronta para sair. E parece haver alguma disposição diabólica na criaturinha que teima em mexer nos botões do fogão, na gaveta de talheres ou no notebook da mamãe, mesmo que ela a tenha proibido mil vezes e esteja agora dizendo “nããããão…” com voz e olhos de bruxa. Essa sensação é compartilhada por muitos genitores, e mesmo entre os mais esclarecidos tem se popularizado a ideia de que os pequenos querem nos sacanear.
Na rodinha de mães & pais esse tema geralmente ajuda a estreitar os laços sociais. Surge aquela solidariedade diante das “provocações” que os respectivos filhos fazem para “testar a paciência” dos ocupados adultos, que justamente por isso chegaram atrasados ao evento na escola. A ideia de uma conspiração da molecada gera boas risadas e desabafos reconfortantes, mas a visão de que as crianças teriam o propósito de desafiar, azedar o programa, cortar o barato, arruinar o dia, azucrinar seus cuidadores etc está se cristalizando como um conceito social preocupante.
Não, elas não estão a fim de nada disso. Elas estão a fim de muitas coisas, porque nessas situações há diferentes processos psíquicos e emocionais se desenrolando, mas nenhum deles tem a ver com a intenção de atrapalhar a vida dos adultos.
Na prática, várias vezes
O menino de 2 anos que olha destemido para a mamãe-bruxa, enquanto tenta tirar o protetor da tomada, tem boas razões para continuar seu gesto que parece desafiador. Entre os diversos motivos possíveis estão a necessidade de internalizar o limite, por exemplo. Ele precisa experimentar, na prática reiterada, o que significa não mexer na tomada. Precisa que a mãe repita várias vezes o ato de dizer “não” e segurar sua mãozinha, de modo firme, cuidadoso e decidido, tirando-o gentilmente para longe da tomada.
Ele precisa experimentar o limite também disfarçando o gesto, ou se escondendo da mãe, o que serão formas diferentes de se perguntar: “Se mamãe não perceber que estou fazendo isso, o ‘não’ continua valendo ou tá liberado?” E se ela surtar com esse desacato à autoridade agravado por ação insidiosa, provavelmente a expressão de bruxa passará também a ser objeto de investigação da criança: “Olha só, se eu ponho a mão aqui, ela faz uma cara diferente… Se continuo mexendo, ela fica até parecendo outra pessoa…” Deveras.
Rotina e segurança
A menina de 3 ou 4 anos que suja o vestido bem na hora de sair pode estar buscando um retorno à segurança da rotina. Adultos animadões com o programa costumam parecer diferentes demais aos olhos das crianças. Mesmo inconscientemente, a menina gera um fato que os traz de volta às questões da casa, ainda que ao preço de expressões de desgosto/reprovação ou até de broncas.
Alguém pode argumentar que isso, então, é pura provocação. Tirando-se o sentido de malícia, o ato da menina realmente provoca uma reação dos adultos. Para estes, implica rever planos e horários, trabalhos adicionais e alguma dose de estresse, mas para ela é só uma tentativa de reencontrar nas faces e atitudes algo de suas referências permanentes, algo que lhe garanta que seus cuidadores continuarão cuidando dela, mesmo em trajes de gala. Funciona bem melhor quando essa garantia é dada pelos pais antes que ela precise pedi-la.
Angústia e trabalho
Às vezes, a sensação de sabotagem aparece naquelas crises que surgem do nada, exatamente quando reina a paz e a família vive seus melhores momentos de harmonia e relaxamento. Ocorre que crianças vivem grandes angústias, e precisam do apoio dos adultos para lidar com essas sensações desconfortáveis, difíceis e necessárias ao seu crescimento. E nada é melhor do que expressar essas angústias a adultos que estejam em paz, de boa, disponíveis enfim. Daí… mãos à obra.
Depois, pode-se desabafar na rodinha dos genitores, claro. Compartilhar as vicissitudes da parentalidade ajuda a aliviar pesos e a recarregar baterias. E vai ser ótimo se a solidariedade unir esses seres cansados, não para alimentar teorias de conspiração na escolinha, mas para reforçar em cada um o sentido das funções de mães e pais.
Angela Minatti e David Moisés
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O poder do pensamento livre .......... p.129
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